DRE para clínicas: o relatório que separa lucro real de ilusão
Sem DRE você acha que lucra — mas não sabe. Estrutura simples de DRE para clínica, com exemplos e armadilhas comuns que escondem prejuízo real.
Bruno Nogueira
Financeiro & controladoria
Clínica brasileira frequentemente confunde caixa com lucro. “O caixa fechou positivo esse mês, então deu lucro”. Pode não ter dado. DRE — Demonstração de Resultado do Exercício — é o relatório que mostra o lucro real do mês, separando o que é operação da bagunça.
Este é o DRE mínimo para clínica brasileira, com explicação de cada linha.
A estrutura básica
Receita bruta
(-) Deduções (impostos sobre serviço)
= Receita líquida
(-) Custo dos serviços (pró-labore clínico + material)
= Lucro bruto
(-) Despesas operacionais (aluguel, salários, sistema...)
= Lucro operacional (EBITDA)
(-) Despesas financeiras (juros, taxas)
= Lucro antes do IR
(-) IR
= Lucro líquido
Cada linha tem uma história. Vamos por partes.
Receita bruta
Total faturado no mês, independentemente de recebimento. Inclui convênio faturado mas não recebido ainda.
Erro comum: registrar só o que entrou no caixa. Isso confunde com DRE de caixa e distorce comparação mensal.
Deduções
- ISS (geralmente 2–5% sobre serviço)
- IR retido na fonte (se pessoa jurídica, varia)
- Outros impostos aplicáveis
Em clínica bem estruturada, deduções ficam em 8–12% da receita bruta.
Custo dos serviços
Gastos diretamente ligados à realização do serviço:
- Pró-labore dos profissionais clínicos (repasse médico)
- Material descartável usado no atendimento
- Insumo clínico (anestésico, medicamento, material de laboratório)
Este número varia fortemente por especialidade:
- Consultório clínico: 20–35%
- Odontologia: 35–50% (material pesa)
- Estética: 30–45%
- Fisioterapia: 40–55% (pró-labore domina)
Se está fora do range, entenda por quê.
Lucro bruto
Receita líquida menos custo dos serviços. É o que sobra para cobrir a operação da clínica.
Meta saudável: 45–65%. Abaixo disso, operação tem pouco colchão.
Despesas operacionais
O grande grupo:
- Aluguel + condomínio + IPTU
- Salários não-clínicos (secretária, gestão, limpeza)
- Sistema / tecnologia (ERP, internet, hospedagem)
- Marketing (anúncios, agência, conteúdo)
- Manutenção (equipamento, prédio)
- Utilidades (luz, água, gás)
- Contador e serviços administrativos
- Depreciação de equipamento
Clínica saudável: despesas operacionais entre 25% e 40% da receita líquida.
EBITDA (lucro operacional)
O indicador mais importante. É o que a operação gera antes de impostos e custo de capital.
Benchmark brasileiro para clínica:
- Ruim: abaixo de 10%
- Ok: 10–18%
- Bom: 18–25%
- Excelente: acima de 25%
Se sua EBITDA está abaixo de 10% por 3 meses, algo precisa mudar — ou preço subiu, ou despesa caiu, ou mix de receita mudou.
Armadilhas comuns
1. Não separar pró-labore de lucro
Sócio tira R$ X por mês “de pró-labore” mas está misturado com lucro. Isso mascara desempenho real.
2. Ignorar depreciação
Cadeira odontológica cara tem vida útil de 10 anos. Não contar depreciação infla o lucro artificialmente hoje e cria surpresa quando o equipamento precisar ser trocado.
3. Marketing como “custo extra”
Marketing é despesa operacional recorrente. Tratar como “evento” atrapalha análise de tendência.
4. Misturar caixa com competência
“Entrou R$ 50 mil” ≠ “faturou R$ 50 mil”. Paciente que faz tratamento longo gera receita no mês do serviço, não no mês do pagamento.
Como rodar mensalmente
Em 90 minutos, no dia 5 do mês seguinte:
- Exporta receita bruta do sistema
- Puxa extrato de despesas do financeiro
- Classifica em cima da estrutura
- Compara com meses anteriores
- Destaca linha que saiu do padrão
Sistema que já faz DRE automático economiza as 90 minutos.
Como o Synaps One ajuda
DRE gerencial mensal sai pronto, com classificação automática. Você vê tendência de 12 meses, compara unidades se tiver mais de uma, e exporta PDF para reunião com sócios ou contador.
Próximos passos
Se sua clínica ainda não tem DRE mensal, comece com o mês passado. Rode a estrutura em cima desse post. Em 2 horas você descobre se está lucrando — ou só sobrevivendo. Veja o módulo financeiro.
Escrito por
Bruno Nogueira
Financeiro & controladoria
Contador e controller. Dá curso de gestão financeira para médicos há 6 anos. Parceiro editorial do Synaps One.
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